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22/10/2015

Poema: O noivado do sepulcro


Vai alta a lua na mansão da morte
Já meia noite com vagar soou;

Que paz tranqüila; dos vaivéns da sorte
Só tem descanso quem ali baixou.

Que paz tranqüila!... mas eis longe, ao longe
Funérea campa com fragor rangeu;
Branco fantasma semelhante a um monge,
Dentre os sepulcros a cabeça ergueu.

Ergue-se, ergue-se!.. na amplidão celeste
Campeia a lua com sinistra luz;
O vento geme no feral cipreste,
O mocho pia na marmórea cruz.

Ergue-se, ergue-se!... com sombrio espanto
Olhou em roda... não achou ninguém...
Por entre as campas, arrastando o manto,
Com lentos passos caminhou além.

Chegando perto duma cruz alçada
Que entre os ciprestes alvejava ao fim
Parou, sentou-se e com a voz magoada
Os ecos tristes acordou assim:

“Mulher formosa, que adorei na vida,
E que na tumba não cessei de amar,
Porque atraiçoas, desleal, mentida,
O amor eterno que te ouvi jurar?”

“Amor engano que na campa finda,
Que a morte despe da ilusão falaz;
Quem dentre os vivos se lembrará ainda
Do pobre morto que na terra jaz?”

“Abandonado neste chão repousa
Há já três dias. E não vens aqui...
Ai quão pesada me tem sido a lousa
Sobre este peito que bateu por ti!”

“Ai quão pesada me tem sido e em meio,
A fronte exausta lhe pendeu na mão,
E entre soluços arrancou do seio
Fundo suspiro de cruel paixão”.

“Talvez que rindo dos protestos nossos,
Gozes com outro de infernal prazer;
E o olvido cobrirá meus ossos
Na fria terra sem vingança ter!”

“- Oh nunca, nunca!” de saudade infinda,
Responde um eco suspirando além...
“- Oh nunca, nunca!” repetiu ainda
Formosa virgem que em seus braços tem.

Cobrem-lhe as formas divinais, airosas,
Longas roupagens de nevada cor;
Singela  c´roa de virgíneas rosas
Lhe cerca a fronte de um mortal palor.

“Não, não perdeste meu amor jurado:
Vês este peito? Reina a morte aqui...
É já sem forças, ai de mim, gelado,
Mas ainda pulsa com amor por ti.”

“Feliz que pude acompanhar-te ao fundo
Da sepultura, sucumbindo à dor:
Deixei a vida...que importava o mundo,
O mundo em trevas sem aluz do amor?”

“Saudosa ao longe vês no céu a lua?”
- Oh  vejo sim... recordação fatal!
- Foi à luz dela que jurei ser tua
Durante a vida e na mansão final.

“Oh vem! Se nunca te cingi ao peito,
Hoje o sepulcro nos reúne enfim...
Quero o repouso de teu frio leito,
Quero-te unido para sempre a mim!”

E ao som dos pios do cantor funéreo,
E à luz da lua de sinistro alvor,
Junto ao cruzeiro, sepulcral mistério,
Foi celebrado, de infeliz amor.

Quando risonho despontava o dia,
Já desse drama nada havia então,
Mais que uma tumba funeral vazia,
Quebrada a lousa por ignota mão.

Porém mais tarde, quando foi volvido
Das sepulturas o gelado pó,
Dois esqueletos, um ao outro unido,

Foram achados num sepulcro só.

Por: Passos, Soares de
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18/10/2015

As pupilas do senhor reitor- Júlio Dinis (1867)


Enredo em tópicos

  • O lavrador Jose das Dornas é um feliz e prospero viúvo, bastante robusto apesar de seus 60 anos.
  • Tinha dois filhos: Pedro e Daniel.
  • Pedro é o mais velho e a copia de seu pai, era o tipo de beleza masculina e tamanha coincidência o levou a seguir os mesmos caminhos do pai como lavrador.
  • Já Daniel era exatamente o contrario, tanto física quanto moralmente. Tinha feição delicada e por conta disso o pai decidiu tornar-lhe padre. O reitor foi quem mais se importou com isso e passou a ensina-lo latim.
  • Porém, aos poucos Daniel passou a se atrasar às aulas e chegar tarde em casa dizendo que estava estudando muito.
  • Seu pai acha exagero estudar tanto e certo dia o reitor o seguiu e o encontrou com sua namorada, uma pastora chamada Margarida.
  • Ao contar isso para o José das Dornas, ele manda Daniel para estudar medicina.
  • Margarida (guida) era meia irmã de Clara, filha de um segundo casamento de seu pai. Elas se tornaram muito amigas quando a madrasta, que a maltratava muito e a servia como empregada, morre.
  • Margarida era autodidata e sofria bastante por amor, ela é solitária e infeliz em decorrência da infância sofrida.
  • Clara era uma moça alegra e entregue as cantorias, era leviana e conhece Pedro, por quem se apaixona e marca o casamento.
  • Daniel, já medico formado, resolve voltar para assistir ao casamento do irmão e ao chegar, deixa todas as moças da redondeza apaixonadas.
  • Ao ser apresentado a Clara, ele se apaixona, e como é um moço bastante galanteador não se restringe a dar em cima dela mesmo sabendo que não é certo.
  • Clara, que é sonsa, não percebe de primeira os galanteios e retribui os tratamentos, ate que certo dia, Daniel vai visita-la durante a noite.
  • Pedro, que passeava pelas redondezas, ouviu conversas dentro da casa de Clara e entra pensando que é um ladrão.
  • A surpresa em encontrar o irmão faz com que Pedro pulasse em cima de Daniel, e aproveitando a confusão, margarida troca de lugar com a irmã.
  • Ao ver margarida, Paulo se lembra de que ela era sua namorada de infância e a pede em casamento.
  • Após muita relutância e insistência da Clara, de Jose das Dornas e do reitor, Margarida aceita o pedido.

Personagens principais e secundários:

  • Margarida - autodidata, recebe maus-tratos quando criança o que a torna uma adulta infeliz e solitária. É uma pessoa boa e tenta ajudar os que lhe pedem. É uma das pupilas do reitor. Ela é a heroína romântica, capaz de bondade e perdão, tudo isso a diferencia dos demais pela capacidade de ver as injustiças sociais.
  • Clara - é a pupila mais nova do senhor reitor. É alegre, comunicativa e um pouco leviana, mas isso não compromete seu caráter. Tem grande amizade à Guida e tenta reparar o sofrimento da infância.
  • Pedro - filho mais velho do José das Dornas e extremamente parecido com ele. Essa semelhança o faz seguir os mesmos passos do pai como lavrador. É robusto, disposto e ingênuo.
  • José das Dornas - pai de Pedro e Daniel, é um lavrador robusto mesmo aos 60 anos, é um homem alegre, viúvo, forte e rijo. Tem uma formação moral tradicional.
  • Daniel - durante a adolescência era delicado e o oposto de seu irmão, o que impediria seu futuro como lavrador. Por conta disso o reitor propõe que seja padre e começa a ensina-lo latim. Seu namoro com margarida faz com que seja mandado para estudar medicina. Ao voltar já está contaminado pelos vícios e comportamentos errôneos da cidade, é namorador e não se lembra de margarida, o que a faz sofrer.
  • Padre Antônio - É o senhor Reitor, o pároco local, onipresente, incansável. Destaca-se entre os personagens por sua função de porta-voz do narrador, o que percebe-se por sua presença estratégica e definidora dos rumos seguidos ao longo do romance. Com o "evangelho no coração" ele não apenas representa a imagem do religioso autêntico, militante, cuja vida é dedicada aos outros, especialmente às pupilas, mas configura um personagem nuclear do romance, sendo porta-voz dos valores que Júlio Dinis quer transmitir às massas, utilizando um velho pároco de aldeia como exemplo vivo da força e da austeridade desses valores. 
  • João da Esquina - Merceeiro que, com sua família, centraliza as fofocas locais. O plano de casar Francisca, sua desmiolada filha, com Daniel, rico herdeiro, ao falhar, torna-o um inimigo irreconciliável dos "das Dornas". 
  • D. Tereza e Francisca - Respectivamente, esposa e filha de João da Esquina. 
  • João Semana - O único médico da aldeia, até que Daniel regresse do Porto. Conservador, nacionalista fervoroso, contador de anedotas. Encarna a solidariedade comunitária, com sua medicina-apostolado, a vida sem outro sentido que não seja a prática do bem e a preocupação com os problemas alheios.
  • Joana - Criada de João Semana, fiel e maternal. Forte, persuasiva, de coração grande, sempre à disposição do médico, seu amo.

Contexto Histórico

O tempo histórico é o presente, como convinha a um autor pré-Realista que preconizava a substituição do maravilhoso psicológico pelo romance de costumes. E presente, neste caso, é o início da segunda metade do século XIX.

Verossimilhança

Costumes, festas, valores e personagens. Da estada para tratamento de saúde em Ovar, interior de Portugal, são as memórias que o autor utiliza na composição de seu romance. Os costumes rurais portugueses, incluindo aí as maledicências, as beatas de verniz, mas também os valores positivos do agricultor próspero, cuja moral do trabalho Júlio Dinis dá como modelo social.

Foco narrativo

O narrador conta a historia em terceira pessoa, sob uma visão onisciente.

Tempo

Tempo histórico; segunda metade do século XIX. O tempo narrativo não se pode determinar a extensão, mas vai desde a infância de Daniel até ele terminar a faculdade.

Espaço da narrativa

Se passa em uma aldeia típica de Portugal. A obra se caracteriza por reforçar o velho motivo literário "fugere urbem" (fugir da cidade).

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