Por: Emmanuel Grieco
Eu
me sentia estranho, sabia que era tarde ,mas já tinha perdido a noção das
horas. Estava a muito tempo no mesmo lugar, a noite estava fria, embora fosse
início do verão, as chuvas torrenciais deixam o clima assim, meio sem vida.
-
Não vá muito longe, aqui parece ser perigoso! Bia gritou da porta antes de me
ver sumindo entre as folhagens do pântano atrás da praia do silêncio.
Havia
caminhado por horas atrás do cemitério, que foi o que me trouxe até aqui. Primeiramente
por não acreditar que alguém iria tão longe para enterrar seus mortos e segundo
por serem corpos das mais bizarras mortes.
Durante
minha caminhada senti o Sol cair, e o dia se despedir com um melancólico tom
alaranjado, e a cada passo sentia o palpitar do solo ,em uma adrenalina
mortalmente excitante, avassaladora.
Se
Betão e Vivian tivessem aceitado meu convite, sentiriam o mesmo, já a Paulinha
nem tanto, era provável que chorasse.
O
cemitério estava próximo, meu corpo sentia, tremia freneticamente, quase ao
ponto de um explosão. E foi aí que as coisas mudaram, o que era silêncio
tranquilo, passou a espaçados sons estranhos, repletos de voluntárias olhadas
em volta, era como se a cada passada de pernas, minha audição se tornasse mais
aguçada, eu ouvia o estalar de galhos, passos se aproximando.
-
Quem está aí?! Gritei virando-me para trás.
Foi
quando ouvi um gargalhar. Aquele som
audível entrou pelos meus ouvidos, colocando-me ao chão, era
deliciosamente doentio, corroía minhas entranhas, gerava um medo que me prendia
a terra como se tivesse criado raízes.
-
Socorro! Gritei em pensamento, minha voz não sai, era angustiante.
Nem
me dei conta, mas já estava no cemitério. O frio aumentara e m edo também, cada
segundo era mais dramático. A risada parou, mas ouvia os passos ainda, era um
som circular.
-
Que está aí! Gritei mais uma vez, e dessa vez fui ouvido, os passos cessaram
por alguns instantes e continuaram em seguida, numa aproximação interminável. E
eu sucumbia.
Senti
o primeiro toque, era agonizante, meu corpo gritava em silêncio e a dor saia
aos olhos, o medo contribui para que piorasse a simples sensação de um galho
encostando em meu corpo, o estranho se aproximara. E novamente a risada
alucinou meus tímpanos, mais intensamente, devido a proximidade e um saco veio
a minha cabeça.
-
Você vai se divertir! A voz mórbida do desconhecido ecoou no ar, acompanhada da
risada mortal. Era estranhamente familiar.
Senti
meu corpo ser arrastado, o saco me deixara se oxigênio, mas ainda pude perceber
que os passos não eram de uma pessoa só.
Meu
corpo batia nas pedras sobre o chão, o olfato identificava o cheiro de sangue,
o meu sangue, enquanto era levado. Mesmo na escuridão a luz da lua,
permitiu que eu enxergasse um casebre
mais a frente, meu temor aumentou. Apaguei.
-
Parem! Parem! Eu imploro! Acordei aos berros, as risadas ecoavam por toda
parte, tentei me soltar, mas meu corpo estava amarrado a um pequeno tronco
seco. Com a visão turva, via apenas vultos de pessoas e luzes, além dos sons
estrondosos e perturbadores que pareciam sair de dentro do tronco onde estava
preso.
-
Eu não aguento mais! Gritei de forma ensurdecedora, a dor no peito era intensa
e gritava o som aumentava, as risadas se uniam, me enlouqueciam. Não estava
mais em mim, estava desnorteado.
Por
algum motivo me senti livre corri e eles me seguiram, a mesma gargalhada não
parava. Cai inconsciente, mas consciente de que algo não estava certo. Horas
depois ouvi ao longe uma voz:
-
Manooo!!!! Mano, onde você está?! Era a voz em choro da Paulinha, está
desesperada.
Ouvi
ainda:
-
Eu avisei para ele não ir longe. Disse Bia em um tom de culpa, não estava em
si.
-
Acharam alguma coisa? Disseram Betão e Vivian chegando luz das lanternas à
clareira com Bia. Estavam completamente embriagados.
Foi
quando Paulinha gritou mais a frente, era possível sentir o horror em cada
milésimo de segundos de seus gritos.
Todos
correram lentamente ao encontro ,devido ao álcool. Foi quando presenciamos um
cena macabra, meu corpo atirado sobre túmulo, extremante machucado, em carne
viva, e rapidamente o cheiro de sangue se espalhou. Bia aproximou-se e puxou
meu corpo ao chão:
Morto!!
Disse aos prantos, eu não pertencia mais ao meu corpo, Vivian estava imóvel
olhando a poucos passos. Paulinha gritou chorando desesperadamente:
-
Eu avisei que isso era idiotice, seus idiotas, eu disse que ele era sensível.
Brincadeira imbecil, olhem só que fim teve. Não acredito.
Vivian
continuava paralisada e Bia caiu ao chão tremendo e se debatendo. Foi quando
mais um som atormentou o ouvido de todos. Era Betão, Paulinha correu e o
encontrou já desacordado, com a corda que me prendera ao pescoço, não havia
mais vida ali...
Vivian
enlouqueceu, imobilizada, repetia aos pés dos mortos:
-
O que eu faço...O que eu faço... A neblina mortífera apagara sua alma...
Paulinha
saiu da ilha, estava fora de si, pegou a estrada para chegar à cidade, não
chegou a tempo na primeira curva o carro saiu da pista, mas não fora trágico, fora
uma passagem de liberdade, morte a liberou da culpa!

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