18/10/2015

Um Conto de Terror

Por: Emmanuel Grieco



Eu me sentia estranho, sabia que era tarde ,mas já tinha perdido a noção das horas. Estava a muito tempo no mesmo lugar, a noite estava fria, embora fosse início do verão, as chuvas torrenciais deixam o clima assim, meio sem vida.
- Não vá muito longe, aqui parece ser perigoso! Bia gritou da porta antes de me ver sumindo entre as folhagens do pântano atrás da praia do silêncio.
Havia caminhado por horas atrás do cemitério, que foi o que me trouxe até aqui. Primeiramente por não acreditar que alguém iria tão longe para enterrar seus mortos e segundo por serem corpos das mais bizarras mortes.
Durante minha caminhada senti o Sol cair, e o dia se despedir com um melancólico tom alaranjado, e a cada passo sentia o palpitar do solo ,em uma adrenalina mortalmente excitante, avassaladora.
Se Betão e Vivian tivessem aceitado meu convite, sentiriam o mesmo, já a Paulinha nem tanto, era provável que chorasse.
O cemitério estava próximo, meu corpo sentia, tremia freneticamente, quase ao ponto de um explosão. E foi aí que as coisas mudaram, o que era silêncio tranquilo, passou a espaçados sons estranhos, repletos de voluntárias olhadas em volta, era como se a cada passada de pernas, minha audição se tornasse mais aguçada, eu ouvia o estalar de galhos, passos se aproximando.
- Quem está aí?! Gritei virando-me para trás.
Foi quando ouvi um gargalhar. Aquele som  audível entrou pelos meus ouvidos, colocando-me ao chão, era deliciosamente doentio, corroía minhas entranhas, gerava um medo que me prendia a terra como se tivesse criado raízes.
- Socorro! Gritei em pensamento, minha voz não sai, era angustiante.
Nem me dei conta, mas já estava no cemitério. O frio aumentara e m edo também, cada segundo era mais dramático. A risada parou, mas ouvia os passos ainda, era um som circular.
- Que está aí! Gritei mais uma vez, e dessa vez fui ouvido, os passos cessaram por alguns instantes e continuaram em seguida, numa aproximação interminável. E eu sucumbia.
Senti o primeiro toque, era agonizante, meu corpo gritava em silêncio e a dor saia aos olhos, o medo contribui para que piorasse a simples sensação de um galho encostando em meu corpo, o estranho se aproximara. E novamente a risada alucinou meus tímpanos, mais intensamente, devido a proximidade e um saco veio a minha cabeça.
- Você vai se divertir! A voz mórbida do desconhecido ecoou no ar, acompanhada da risada mortal. Era estranhamente familiar.
Senti meu corpo ser arrastado, o saco me deixara se oxigênio, mas ainda pude perceber que os passos não eram de uma pessoa só.
Meu corpo batia nas pedras sobre o chão, o olfato identificava o cheiro de sangue, o meu sangue, enquanto era levado. Mesmo na escuridão a luz da lua, permitiu  que eu enxergasse um casebre mais a frente, meu temor aumentou. Apaguei.
- Parem! Parem! Eu imploro! Acordei aos berros, as risadas ecoavam por toda parte, tentei me soltar, mas meu corpo estava amarrado a um pequeno tronco seco. Com a visão turva, via apenas vultos de pessoas e luzes, além dos sons estrondosos e perturbadores que pareciam sair de dentro do tronco onde estava preso.
- Eu não aguento mais! Gritei de forma ensurdecedora, a dor no peito era intensa e gritava o som aumentava, as risadas se uniam, me enlouqueciam. Não estava mais em mim, estava desnorteado.
Por algum motivo me senti livre corri e eles me seguiram, a mesma gargalhada não parava. Cai inconsciente, mas consciente de que algo não estava certo. Horas depois ouvi  ao longe uma voz:
- Manooo!!!! Mano, onde você está?! Era a voz em choro da Paulinha, está desesperada.
Ouvi ainda:
- Eu avisei para ele não ir longe. Disse Bia em um tom de culpa, não estava em si.
- Acharam alguma coisa? Disseram Betão e Vivian chegando luz das lanternas à clareira com Bia. Estavam completamente embriagados.
Foi quando Paulinha gritou mais a frente, era possível sentir o horror em cada milésimo de segundos de seus gritos.
Todos correram lentamente ao encontro ,devido ao álcool. Foi quando presenciamos um cena macabra, meu corpo atirado sobre túmulo, extremante machucado, em carne viva, e rapidamente o cheiro de sangue se espalhou. Bia aproximou-se e puxou meu corpo ao chão:
Morto!! Disse aos prantos, eu não pertencia mais ao meu corpo, Vivian estava imóvel olhando a poucos passos. Paulinha gritou chorando desesperadamente:
- Eu avisei que isso era idiotice, seus idiotas, eu disse que ele era sensível. Brincadeira imbecil, olhem só que fim teve. Não acredito.
Vivian continuava paralisada e Bia caiu ao chão tremendo e se debatendo. Foi quando mais um som atormentou o ouvido de todos. Era Betão, Paulinha correu e o encontrou já desacordado, com a corda que me prendera ao pescoço, não havia mais vida ali...
Vivian enlouqueceu, imobilizada, repetia aos pés dos mortos:
- O que eu faço...O que eu faço... A neblina mortífera apagara sua alma...

Paulinha saiu da ilha, estava fora de si, pegou a estrada para chegar à cidade, não chegou a tempo na primeira curva o carro saiu da pista, mas não fora trágico, fora uma passagem de liberdade, morte a liberou da culpa!

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