18/10/2015

Conto : A capacidade de amar

Por: Amanda Bento



Certo dia de primavera, estava Sophia a passear com a mãe que a guiava pelos jardins do castelo, tinha dezessete anos, uma jovem de pele alva, cabelo áureo, e no rosto notável harmonia entre os olhos azuis, nariz afilado e lábios vermelhos. Avistada por Petrônio, que brincava de peteca com os amigos ali nas proximidades, logo foi notada por singela beleza. Este pegou-se admirando como ela andava e sentia as flores, cada bloco de girassóis, iris, cravos não passava despercebido pela garota que passava tocando uma por uma. A mãe estava conversando com D. Marta, a responsável por regá-las, quando ouviu o grito da menina, pois esta tinha chegado ao conjunto das rosas e ao tocá-las, furou-se com os espinhos. Petrônio achou estranho que a garota não visse os espinhos e precisasse tocar em tudo que estava ao seu redor, mas logo descobriu que Sophia era cega de nascença e aquele passeio era mais um integrante do grupo de projetos da mãe para ajudá-la a conhecer a forma das coisas belas deste mundo, já que jamais teria a oportunidade de enxergar a beleza das cores. A mãe levou a garota para casa, porque precisava de cuidados maiores. O menino foi acertado pela peteca nessa hora, quando seus amigos tentavam restitui-lhe ao jogo, mas Petrônio deu sinal de que não queria mais jogar e saiu em busca de seguir Sophia. Ficou encantado. Viu-a entrar em casa e voltou para a sua, pois o sol, como Sophia, também recolhera sua luz.
Ao chegar em casa, Petrônio sinalizou à mãe, D. Joana, que estava com fome e depois de banhar-se e jantar, a mãe o levou para a cama, o fez rezar e deixou-o só. Ao olhar para as estrelas lembrava-se dos olhos de Sophia enquanto pensava em uma maneira de participar do dia da moça... Dera-se conta de que já a amou à primeira vista. Dormiu pensando nela.
No dia seguinte, escreveu um bilhete para a mãe, informando sobre o que sentia e seus anseios. Por sua sorte, D. Joana já tinha trabalhado na casa da mãe de Sophia e prometeu ajudá-lo. Havia um problema pela frente... Petrônio era mudo e seria um desafio fazer Sophia o perceber, já que a alternativa para a mocinha era a voz das pessoas. À tarde deste mesmo dia, foram lá. D. Joana conversava com D. Joaquina, mãe da garota, enquanto Petrônio a observava, educada, a comer só, tocar piano e ter uma independência surpreendente. Tudo isso bem trabalhado pela mãe, com o método de fazê-la imaginar o formado das coisas desde pequena. As visitas se estreitaram e Sophia foi conhecendo Petrônio através dos comentários da mãe e do que ouvia de D. Joana.
Certo dia, ao perceber o interesse constante de Sophia em ouvir sobre o garoto, perguntou-lhe:
- “Filha, você está sentindo algo a mais? A mamãe sabe que é o primeiro rapaz que tem se aproximado dessa forma, ainda com a minha permissão, pois os outros eu notava o profundo interesse no que você possuía e não no seu ser.”
- “Não, mamãe!” Disse Sophia, corada.
- “Meu amor, deixe eu lhe contar um segredo: Quando você nasceu e a mamãe notou que eras especial, de princípio ficou triste, mas depois pensou em alternativas para isso. A primeira foi a sua infância. Como eu faria para ajudá-la a ser independente e se sentir capaz? Eu a estimulei para conhecer o circulo, o quadrado, cubo... Tudo! Precisava aflorar a sua imaginação. Deu certo. Hoje penso no seu coração e depois de muito rebater, eu decidi uma coisa.”
Com os olhinhos brilhando, Sophia perguntou:
-“O que, mamãe?”
-“Independente do status social, econômico ou político, eu deixarei você escolher. O que o seu coração disser, eu confiarei como se fosse Deus me dando uma ordem.  Porque já bastava a limitação que lhe foi dada, eu não queria ser mais um empecilho na realização de seus sonhos.”
- “Mamãe, eu estou amando Petrônio.” Disse Sophia lagrimando.
- “Tudo bem, meu amor.”
Sophia não conseguia medir a veracidade do que dissera à mãe e como ajuda, a mãe permitiu o contato mais próximo dos dois a fim de despertar a certeza. Almoçavam juntos, passeavam juntos... Pedro a guiava pelo bosque e tudo o que tinham era o tato e audição. Usaram os dedos para criar códigos, um alfabeto somente dos dois, no qual não existia a palavra “impossível”. Como Petrônio só conseguia responder dessa forma, Sophia padronizou essa linguagem e era a única forma de comunicação direta entre os dois.

Sophia passou certeza à família e Petrônio também fez a sua parte. Decidiram casar e assim se fez. No dia do casamento, os juramentos se deram na linguagem dos dois, conforme ouviam. Todos os convidados ficaram emocionados. E como gesto final, os dois viraram para frente e fizeram um símbolo do infinito com as mãos, explicado posteriormente por Sophia. Adequados para viver esse amor, antes impossibilitado pelas limitações físicas, viveram felizes para sempre.

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